Encantados são entidades espirituais presentes nos cultos de Encantaria, tambor-de-mina, Umbanda, Candomblé de Caboclo, Catimbó, Terecô e pajelança. Segundo o livro Encantaria Brasileira de Reginaldo Prandi, encantados ocupam um lugar especial, transmitindo força vital, magia, saber e poder ancestral às comunidades que os cultuam.
Diferente dos espíritos desencarnados, os estas entidadessão seres que não passaram pelo ciclo comum da morte física (desencarne). Muitos deles jamais morreram de fato — acredita-se que “encantaram-se” na natureza: viraram pedras, animais, árvores ou desapareceram em rios, montanhas, cavernas. Tornam-se parte viva e consciente de um plano mágico, espiritual e natural. Alguns seres transmutadostiveram uma vida encarnada, mas ao invés de morrer, tornaram-se forças da natureza, protetores de espaços sagrados e intermediários entre mundos.
Diferença entre Encantado e Espírito Desencarnado
Espírito desencarnado é, geralmente, o espírito de uma pessoa que viveu, morreu e segue sua trajetória no plano espiritual, podendo se manifestar em terreiros, casas espíritas e trabalhos mediúnicos. Pode ser ancestral, guia, orientador ou obsessor, participa do ciclo de reencarnação e evolução conforme as leis espirituais.
Já o encantado:
- Nem sempre morreu fisicamente; pode ter “sumido” ou sido transmutado por forças mágicas, integrado à natureza ou ao plano astral (Ex: princesa Rosalina, Dom Sebastião).
- Têm características de guardiões ou protetores naturais, como caboclos, mestres de tradição, figuras míticas indígenas, seres ligados a matas, rios e pedras.
- Não são obrigados a reencarnar, habitam “cidades encantadas”, domínios mágicos ou locais de força (morros, cachoeiras, ilhas, florestas).
- Podem manifestar poderes especiais: cura, proteção, orientação, e interagir mediunicamente com pessoas sensíveis.
Resumo da diferença:
- O desencarnado é ex-humano no plano astral, obedecendo o ciclo de morte e reencarnação.
- O encantado é força da natureza, mito vivo, presença mágica — não necessariamente passou pelo desencarne.
Exemplos Clássicos de Encantados
- Dom Sebastião: monarca que, segundo lendas do Maranhão e tambor-de-mina, virou touro encantado e surge em noites de lua nas praias e morros.
- Princesa Rosalina: encantada em animal ou pedra, protege lagos e tesouros escondidos.
- Caboclo da Mata: figura cabocla ligada aos mistérios da floresta, intermediário entre seres humanos e os encantados.
- Mestres juremeiros: personagens transmutados, detentores de saber mágico ancestral, presentes em catimbó, pajelança, Umbanda.
Como os Encantados se manifestam?
Em rituais de encantaria, tambor-de-mina ou terreiros afro-indígenas, os encantados se manifestam através de possessão, sonhos, visões, recados e fenômenos mágicos. Por meio de fenômenos naturais como brisas, animais, pedras, rios e vozes da mata, eles comunicam sua presença e orientação. Em festas e obrigações, auxiliam na cura, proteção e harmonização dos assistidos, funcionando como intermediários diretos entre o plano espiritual e material.
Encantados e Elementais
Encantados não são elementais, embora também estejam ligados à natureza. Elementais são seres de energia primária, como fadas, gnomos e salamandras. Encantados, por sua vez, são humanos, caboclos, reis, princesas, mestres ou animais transmutados, imortalizados em mitos e tradições brasileiras, especialmente nas práticas do tambor-de-mina, Catimbó e Umbanda.
Diferenças entre Encantados e Orixás
Muitas pessoas confundem estas entidades com orixás do Candomblé, como Exu, que é o mensageiro dos deuses. Porém, os orixás são forças divinas da natureza, enquanto estas entidades brasileiras são espíritos que se transmutaram. É fundamental compreender que, enquanto orixás representam forças cósmicas universais, estas figuras místicas têm origens específicas na cultura brasileira e nas tradições indígenas e afro-brasileiras.
Na Umbanda contemporânea, estas entidades trabalham lado a lado com guias espirituais e caboclos, oferecendo cura, orientação e proteção aos consulentes. Sua presença nos terreiros é marcada por cantos tradicionais, danças rituais e oferendas específicas. O culto a estas entidades preserva conhecimentos ancestrais transmitidos oralmente por gerações, mantendo viva a tradição da encantaria brasileira.
Para quem busca compreender melhor a espiritualidade afro-brasileira, entender a natureza destas entidades é essencial. Elas representam a fusão única entre as crenças indígenas, africanas e europeias que formaram a religiosidade brasileira.